terça-feira, junho 30, 2020

Saltos altos, Saltos baixos

Sou baixa apesar de conseguir chegar sempre onde preciso. Sou baixa desde sempre, mesmo quando era espectável que o fosse;mas nessa altura era também expectável que um dia deixasse de o ser…e isso nunca aconteceu! Não sou desproporcionalmente baixa, mas baixa o suficiente para não chegar às prateleiras da cozinha ou do supermercado ou ao varão do autocarro para me segurar. Sou baixa o suficiente para ter desistido de comprar bilhetes para ver concertos de pé. E mesmo os sentados… Sou baixa o suficiente para que a perspetiva do mundo seja a da cintura dos outros para baixo, o que me torna uma especialista em joelhos, pernas e pés, sapatos, fechos e breguilhas (e não imaginam a quantidade de breguilhas abertas que vejo!). Sou baixa o suficiente para me safar do cheiro a transpiração da maioria das pessoas, tendo em conta a distância que estou das suas axilas, mas há outro tipo de cheiros muito diversos e nem sempre agradáveis que se sentem no andar de baixo! Sou tão baixa que tendo a passar despercebida. E isso acabou por ser determinante na minha vida;na amorosa também. A primeira vez que estive com um rapaz estiquei-me o mais que pude para o beijar. E ele, ao fim de 10 minutos, queixou-se de dores no pescoço por ter que se baixar. Corei e fui-me embora e passei muito tempo sem voltar a beijar ninguém. Quando fiz 18 anos a minha mãe disse-me: “As mulheres não se medem aos palmos, mas ainda assim, pega lá!” Era uma caixa. De sapatos. Com uns sapatos lá dentro. Eram bonitos. De verniz. Brancos. Eram de salto. Alto! Calcei-os, senti-os frios, senti-os macios, senti-os meus, senti-os altos! Senti-me alta! Saí para a rua confiante do meu tamanho e vi um mundo diferente. Assim como quem vê mal e passa a usar óculos. Os meus óculos eram a minha altura! Os meus óculos eram aqueles sapatos! Durante meses não os tirei. Éramos unha e carne sem metáfora, porque eles estavam sempre ali, junto das unhas e da carne;dos pés. E fartamo-nos de fazer coisas maravilhosas, coisas de gente alta;de gente que tem tamanho suficiente. Um dia de manhã, como em todas as manhãs desde que recebi os sapatos, fui calçá-los. Não entravam! Não serviam! Não cabiam! Senti-me como as irmãs da Cinderela, a perder a oportunidade de viver a sua história! Porque sem eles perderia de novo a oportunidade de viver a minha história. Saí de casa ainda assim; expectante do impacto da minha baixeza. Com dificuldade fui levantando a cabeça para olhar em redor. E o que vi foi revelador! Gostava de vos dizer que o que vi foi o que veem as pessoas altas, talvez porque eu tivesse crescido. Mas não, para além dos pés mais nada cresceu. A não ser a certeza de que não há maior privilégio do que ver o mundo por diferentes perspetivas!

quarta-feira, junho 24, 2020

Flashes da quarentena

Um corpo com medo é um corpo que existe tanto como um corpo livre. Existe torto, mas não está morto. Existe tenso, mas também intenso. Um corpo parado existe tanto como um corpo em movimento. Existe perro, como se fosse um erro. Existe sozinho, fechado num ninho. Um corpo sem ar, sem respirar, um corpo à procura de se encontrar; Quando lhe dizem que tem que se fechar.

terça-feira, junho 16, 2020

ESTOU COM OS AZUIS

Estou com os azuis em Portugal. Estou com os azuis, não me leves a mal. Estar com os azuis é como estar verde de inveja, mas assim com uma inveja daltónica? É estar com pessoas de outras cores? “Hoje vou estar com os azuis!” Assim, como quem está com pessoas de cor azul? Essa também pode ser a cor de uma pele? Ou só quando se está morto? Qual é a cor da pele? É estar vermelho de raiva, mas com um pouco mais de azul? Azul é cor primária, só se faz com ela própria! Não gosta de misturas! Quando estou com os azuis não gosto de misturas. Estar com os azuis é estar claro e escuro e turquesa e ciano? É não saber como se está? É estar sad numa tradução literal cheia de sinestesia? É isso? Estou com os azuis em Portugal, que é como quem diz: “estou com os azeites!”…não me leves a mal!

terça-feira, junho 09, 2020

Bela adormecida ou coma profundo [Flashes da quarentena]

Tempo de não tempo, buraco no tempo, tempo adormecido. No despertar, pouca memória sobre o que foi, Retomando agora onde estávamos antes de tudo…
Quero que a minha casa me case e que seja um caso sério. Quero que casar deixe de ser um mistério. Quero entrar sem sapato; quero entrar pela janela. Quero que me prepares o chá naquela xícara amarela. Quero jogar xadrez e fazer-te um xeque-mate. Quero sentir nos lábios o teu sabor a chocolate. Quero um amor de faca e funil. Não de alguidar Não quero ter que me lavar.