quarta-feira, abril 28, 2021
Carta de despedida
Carolina,
Vou ter saudades. Vou ter saudades nossas. De te cantar à noite; de pentear o teu cabelo;De me sentir única; de me sentir útil; de me sentir grande.
Vamos ser outra coisa agora! Vais ser outra coisa agora. Uma procura, entre o que foste e o que queres ser. Um desencontro. Muitos encontros.
Deixo-te aqui a tua história contada pelos meus olhos. Talvez ajude para o que aí vem; talvez não. A história é tua, farás com ela o que quiseres.
Sempre gostei de despedidas: deixam no horizonte expectativas; deixam-nos em apneia até à próxima expiração (mas sem aflição).
Já inspirei e estou pronta! Tu também, tenho a certeza!
Vamos a isto!
mãe
domingo, janeiro 31, 2021
quarta-feira, outubro 28, 2020
Matrioska
Na altura em que começa esta história carregávamos em nós a dualidade do tempo: eramos suficientemente crescidos para acharmos que sabíamos o que queríamos e suficientemente naïfs para querer o que não sabíamos. Tínhamos tempo sem saber; e gozávamos o prazer de não saber o que fazer com o tempo.
É uma história que começa antes deste começo; como uma matrioska, que se encaixa, em sucessivas histórias e que todas juntas formam algo muito grande!
Esta história também começa com um encaixe! O da caixinha castanha? Sim, esse encaixe, na sua versão bem literal! Começa com uma dança, um colo, uma cama…e amor!
E siga que temos que ir ajudar o Sanches e a Maci a carregar os móveis da Teresa Carrington para a casa da Boavista…e siga fazer xixi para este pausinho que o período não vem e vamos lá tirar esta preocupação clichê de cima dos dias…
E nós...num sofá beje de outros tempos teus…e o silêncio;o pânico;e cada um, a fazer as suas contas. A somar, a subtrair…
Esta é a história de como percebemos juntos o privilégio de construirmos histórias juntos! De nos construirmos juntos!...e como nunca mais paramos essa construção!
sexta-feira, setembro 18, 2020
PLAY
Vou comprar um gravador de pensamentos. Penso bem, mas digo mal. Comunicarei por audios, que serão a voz do meu pensar.
terça-feira, junho 30, 2020
Saltos altos, Saltos baixos
Sou baixa apesar de conseguir chegar sempre onde preciso. Sou baixa desde sempre, mesmo quando era espectável que o fosse;mas nessa altura era também expectável que um dia deixasse de o ser…e isso nunca aconteceu!
Não sou desproporcionalmente baixa, mas baixa o suficiente para não chegar às prateleiras da cozinha ou do supermercado ou ao varão do autocarro para me segurar. Sou baixa o suficiente para ter desistido de comprar bilhetes para ver concertos de pé. E mesmo os sentados…
Sou baixa o suficiente para que a perspetiva do mundo seja a da cintura dos outros para baixo, o que me torna uma especialista em joelhos, pernas e pés, sapatos, fechos e breguilhas (e não imaginam a quantidade de breguilhas abertas que vejo!).
Sou baixa o suficiente para me safar do cheiro a transpiração da maioria das pessoas, tendo em conta a distância que estou das suas axilas, mas há outro tipo de cheiros muito diversos e nem sempre agradáveis que se sentem no andar de baixo!
Sou tão baixa que tendo a passar despercebida. E isso acabou por ser determinante na minha vida;na amorosa também.
A primeira vez que estive com um rapaz estiquei-me o mais que pude para o beijar. E ele, ao fim de 10 minutos, queixou-se de dores no pescoço por ter que se baixar. Corei e fui-me embora e passei muito tempo sem voltar a beijar ninguém.
Quando fiz 18 anos a minha mãe disse-me: “As mulheres não se medem aos palmos, mas ainda assim, pega lá!” Era uma caixa. De sapatos. Com uns sapatos lá dentro. Eram bonitos. De verniz. Brancos. Eram de salto. Alto! Calcei-os, senti-os frios, senti-os macios, senti-os meus, senti-os altos! Senti-me alta!
Saí para a rua confiante do meu tamanho e vi um mundo diferente. Assim como quem vê mal e passa a usar óculos. Os meus óculos eram a minha altura! Os meus óculos eram aqueles sapatos!
Durante meses não os tirei. Éramos unha e carne sem metáfora, porque eles estavam sempre ali, junto das unhas e da carne;dos pés. E fartamo-nos de fazer coisas maravilhosas, coisas de gente alta;de gente que tem tamanho suficiente.
Um dia de manhã, como em todas as manhãs desde que recebi os sapatos, fui calçá-los. Não entravam! Não serviam! Não cabiam! Senti-me como as irmãs da Cinderela, a perder a oportunidade de viver a sua história! Porque sem eles perderia de novo a oportunidade de viver a minha história.
Saí de casa ainda assim; expectante do impacto da minha baixeza. Com dificuldade fui levantando a cabeça para olhar em redor. E o que vi foi revelador! Gostava de vos dizer que o que vi foi o que veem as pessoas altas, talvez porque eu tivesse crescido. Mas não, para além dos pés mais nada cresceu. A não ser a certeza de que não há maior privilégio do que ver o mundo por diferentes perspetivas!
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